sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Nascimento do Gabriel

Antes de começar esta narração é importante destacar que apesar de me referir a um mesmo fato que o texto anterior – o nascimento de um filho – as experiências e sensações aqui relatadas são completamente diferentes.
Isso me faz lembrar uma frase enunciada há muitos anos, antes mesmo do nascimento de Cristo, por um filósofo que, se não me falha a memória, chamava-se Heráclito, O Obscuro: “um homem nunca pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. Uma das razões óbvias é que as águas do rio mudam a cada fração de segundo, mas o mais importante é que o homem também muda, crescendo a cada nova experiência.
É incrível como o tempo nos faz pensar diferente, note que não estou me referindo a um tempo muito extenso, mas apenas dois anos de experiência, o que já são suficientes para se perceber uma gigantesca mudança – tanto nas águas do rio, quanto no homem – como diria nosso amigo obscuro.
Com a experiência, aprendi a valorizar mais o apoio da família e passei até a necessitar mais dele. Percebi que a união da família é muito importante, mesmo apesar do fato de que cada um tem uma opinião diferente e se adianta a pronunciá-la em altos brados, todos ao mesmo tempo.
Voltando a narração, estava tudo preparado para contar com o apoio deles: “a família”, principalmente dos avós; que apesar de serem de outros tempos e com costumes diferentes, aprenderam os novos costumes por imposição nossa e de nosso rígido “Dr. Marcelo”.
Dessa vez, tudo estava diferente. Ao invés de estarmos ansiosos aguardando a hora “H” para sairmos todos correndo, como descrito anteriormente, estávamos tranqüilos esperando o tempo passar. Os avós estavam em suas cidades e nós – eu e a Aninha – seguíamos nossa rotina.
Percebemos que de nada adianta ficar pré-ocupado demais, isso só dificulta o raciocínio. Tanto é verdade que, da primeira vez, a cada visita ao médico eu ficava planejando o que fazer quando ele decidir internar minha esposa para o parto. E ele te frustra mandando você retornar somente dali a quinze dias.
Então dessa vez, nada de ansiedades, nada de ficar planejando tudo com antecedência, nada de sofrer de véspera (como um peru), nada de sair correndo no meio da noite, nada de nada. Agora somos experientes, sabemos planejar, sabemos o que precisa e o que não precisa. Sabemos tanto, que ainda nem fizemos as malas para a maternidade.
Fomos ao médico para fazer o acompanhamento de rotina, e esperávamos voltar lá, como de costume, em quinze dias – por volta do dia doze de setembro, quando o bebê estivesse com quase quarenta semanas – mas qual não foi a nossa surpresa quando ele nos pediu para voltar em uma semana para marcar os últimos detalhes do parto. O quê? Meu filho vai nascer na semana que vem?
Somente nesta última semana caiu a ficha de que minha família estava crescendo: em breve haveria um choro diferente, haveriam duas crianças correndo pela casa, e minha conta nas churrascarias, que há pouco eram individuais, seriam multiplicadas por quatro, e por seis quando vierem os namorados. Nossa! Estou envelhecendo!
Com a notícia de que o bebê estava a caminho, corremos para verificar o que precisaria de material para a maternidade e, graças à competência e agilidade da Ana Paula, faltavam poucas coisas.
Durante a última semana, empenhamo-nos em preparar os detalhes para que no fim de semana recebêssemos os avós. É... Você leu direito sim! Está escrito “no fim de semana” mesmo. Se fossem outros tempos eles já estariam aqui há semanas!
Ainda na sexta-feira dia vinte e nove de agosto ligamos para os avós, esperávamos que eles viessem passar a última semana junto conosco, mas eles tinham que resolver coisas e só viriam para cá na véspera da data marcada.
Gostaríamos também que o pediatra da Mariana – Dr. Marcelo – acompanhasse o parto, e por isso começamos a encaminhar e-mails para ele a fim de conseguirmos coincidir horários de agrado entre ele e o Dr. Sheldon, o obstetra. Depois de muitos e-mails somente por volta de quinta-feira, conseguimos conciliar os dias e horários. Ficou então marcado para o final da tarde de segunda-feira, dia cinco de setembro.
Depois do último encontro com Dr. Sheldon no consultório, na sexta-feira dia dois de agosto, aproveitamos a tarde para cuidar dos detalhes finais. Era um dia animado, principalmente porque realizamos na véspera a uretrocistografia na Mariana e descobrimos que o seu refluxo vesico-ureteral havia encerrado (eu sei que são palavras estranhas, mas estão aqui para eu me lembrar no futuro). Trocando em miúdos, não precisaria mais tomar Wintomylon todos os dias (antibiótico profilático) como temos feito há um ano e meio.
Apesar de animado foi um dia cansativo, pois andamos bastante pelo centro da cidade e inacreditavelmente fazia bastante sol. Ao fim do dia pegamos a Mariana na escolinha, jantei e fui trabalhar, coincidentemente, a Aninha havia preparado uma sopa naquele dia, exatamente como o médico sugeriu para segunda-feira no dia do parto.
Ao chegar na sala de aula, lembrei-me do celular que havia esquecido no carro. Há dois dias a Aninha vem sentindo dores de contração, nada ritmado ainda, nem o médico tinha se preocupado muito com esta informação, mas não custa prevenir. Voltei, peguei o celular e voltei à aula, que transcorreu tranqüilamente.
Ao retornar a casa, as duas – Aninha e Marianinha – estavam descansando no sofá. Tomei um banho, comi um pouco mais de sopa, A Aninha acordou, conversei com ela um pouco e ela resolveu dormir. Antes de ir para a cama, perguntei-lhe se havia sentido alguma contração durante minha ausência. Ela me respondeu que não.
Assisti um pouco de TV, e resolvi levar a Marianinha para cama. Levei um susto tremendo quando eu vi a Aninha – que não tem o costume de se levantar à noite – no meio da escuridão, toda de branco, andando lentamente no corredor. Pois há alguns dias passei algumas horas com minha sogra argumentando sobre minha opinião acerca da existência de almas que se tornam visíveis no meio da noite, mas isso não vem ao caso agora.
A Aninha me disse que estava tendo contrações, eu nem dei muita bola, pois ela havia caminhado o dia todo e devia ser reação do cansaço, afinal não deve ser fácil carregar uma barriga de nove meses pelo centro de Curitiba.
Finalmente, coloquei a Marianinha na cama e a Ana surgiu dizendo que estava com contrações novamente, eu sugeri para irmos para a cama relaxar, pois o médico havia dito que a contração pode ser conseqüência da posição que se encontra o bebê.
 Dali a pouco, ela sentou na cama e começou a se contorcer, eu resolvi então medir o ritmo. Em sete minutos ela teve outra, e depois outra, e depois outra, e pela sua expressão, parecia que a dor era intensa.
Comecei a traçar um plano de emergência, se necessário a Mariana fica no quarto da Maternidade comigo enquanto a Ana vai para a sala de parto. Quando comentei isso, a Ana ficou brava – e com razão – pois haviam diversas opções com quem deixar a Mariana, além do mais, ela precisava de meu apoio na sala de parto, depois da bronca mais uma contração.
Liguei para o médico e... – fora da área. – Pronto! Só falta agora ele estar fora da cidade, pensei. Tentei de novo e... – fora da área! De novo e... – fora da área! De novo e... – MAIS UMA CONTRAÇÃO!
– Vamos então para a maternidade para examinar o que está acontecendo e se necessário ficamos por lá mesmo, sugeri.
Liguei para o Alexandre, meu vizinho, e pedi para deixar a Marianinha lá. Ele demorou para entender o que estava acontecendo – afinal já era meia-noite – mas depois que entendeu se propôs a vir buscá-la. Tarde demais, eu já estava no elevador com ela no colo e as coisas dela nas mãos, a caminho do apartamento dele. Lá ele e Carina, sua esposa, atenderam-me prontamente, coloquei a Marianinha na cama e voei de volta para casa.
Chegando em casa, peguei as malas, e desci correndo para o carro – Ops! Esqueci-me de Perguntar como estava a Ana. Nesse meio tempo ela deve ter tido mais umas duas contrações. Quando voltei para casa, a Aninha estava pronta, sentada no sofá tendo outra contração.
Entramos no carro, ela já havia ligado para a mãe dela, e eu resolvi ligar para minha mãe. Mas antes vou tentar falar com o médico e... – fora da área!
Liguei então para minha mãe para contar o que estava acontecendo, ela atendeu como se fosse algo normal, cadê aquele desespero do primeiro parto? No caminho da maternidade, mais uma contração.
Acho que esse negócio devia chamar-se contorção, pois a Aninha se contorcia no banco do carro, e a gente se sente impotente pois não há nada a fazer, a não ser dizer a irritante frase: – Calma que vai passar!
Subindo a Visconde de Guarapuava, em direção a Maternidade Nossa Senhora de Fátima, eu lembrei de meu antigo sonho holywoodiano de correr sozinho com minha esposa para a maternidade para ganhar meu filho. Entretanto, ironicamente, desta vez eu sinceramente não queria que fosse assim. Respirei fundo e resolvi encarar, afinal não tinha outro jeito. E em meio às divagações, outra contorção – Bem vindo ao mundo real! Como diria Morpheus.
Perguntei para a Aninha se ela tinha se alimentado somente de sopa, como o médico sugeriu, e ela me confessou que fora visitar Dola, nossa vizinha libanesa, e como de costume ela lhe oferecera muita coisa para comer. Esta nossa vizinha, muito simpática, é daquelas pessoas que sabe receber muito bem, e sempre tem algo delicioso para comermos, é impossível ficar indiferente na casa dela.
Chegamos na maternidade e fomos prontamente atendidos. Entramos numa salinha para exame, a Ana despiu-se, colocou aquele aventalzinho horrível de paciente, e eu contei o tempo novamente, os intervalos entre as contorções haviam diminuído para cinco minutos. Percebi que a hora do parto estava chegando e como da outra vez, em pouco tempo entraria pela porta a simpática médica de plantão, e depois de um breve exame, ligaria para o Dr. Sheldon e estaria tudo pronto.
O tempo passou, e nada. Duas contorções e meia depois, entrou pela porta um médico sisudo – não sei se ele era sisudo mesmo ou se estava assim por causa do plantão.
Eu disse: – Boa noite! Mas ele não respondeu, disse brevemente o seu nome – que eu nem consegui entender – disse que era o médico de plantão, e perguntou rispidamente: – O que está acontecendo? – Acho que estou entrando em trabalho de parto, respondeu a Aninha timidamente.
Após algumas perguntas e algumas contorções, ele se aproximou para examiná-la. Perguntou por que ela tinha tido cesárea na primeira gestação, e por que não parto normal – pareceu-me que ele era um defensor do parto normal, eu não tenho nada contra sua opinião, sei das vantagens e desvantagens do parto normal, mas ali não era nem a hora e nem o lugar para decidir isso, essa era uma discussão que deveria ter acontecido antes, no consultório durante o pré-natal, e aconteceu, com o médico que a gente escolheu para o parto, não ele – então tentei pensar uma estratégia caso não conseguisse falar com nosso médico.
Enquanto isso, o Dr. sisudo pediu para a Aninha deitar-se para ser examinada, ao ter contrações ela perguntou se poderia sentar-se para ficar numa posição mais cômoda, e ele respondeu: – Não! Sem justificar sua resposta.
Ela disse que doía muito, então ele disse: – Isso não é nada ainda! Nesse momento eu já não sabia mais quem iria fazer o parto de meu filho, mas eu já tinha certeza absoluta de quem certamente não o faria! Como me disseram uma vez: “Coitado daquele, que um dia, teve que ficar exclusivamente nas mãos de um policial, um médico, ou um advogado”.
O médico sisudo foi ao telefone: – Quero falar com o Sheldon... Após uns segundos que mais pareciam uma eternidade o silêncio foi rompido – Sheldon? Eu estou com uma paciente sua!
Quando ouvi esta frase, senti um alívio tão grande que parecia que meu filho já havia nascido, e acho que a Aninha também, quando vi sua expressão. Acho até que sua próxima contração nem tenha sido tão intensa quanto as outras.
O médico sisudo desligou o telefone, iniciou os preparativos para o parto e nos informou que em breve – e graças ao anjo Gabriel – o Dr. Sheldon estaria ali. Eu dei um beijo na Aninha, pois eu sabia que somente voltaria a vê-la anestesiada na sala de cirurgia e saí para acertar os detalhes do internamento.
Assinei uns papéis, estacionei o carro, liguei para o pediatra, liguei para os avós, levei as coisas para o quarto, preparei a máquina fotográfica, tentei fazer tudo isso o mais rápido possível, pois se os médicos chegassem eu não queria ser o fator que iria atrasar o parto, além disso, nesse meio tempo a Aninha já deve ter tido umas dez contorções.
Do quarto eu fui chamado para me vestir e me preparar para a sala de cirurgia, coloquei as roupas e esperei ser chamado, nesse tempo resolvi ligar para meus irmãos, eram duas horas da manhã eu não costumo incomodar, mas era um momento especial e eu queria que eles participassem, mesmo à distancia.
Depois eu pedi para a enfermeira deixar eu entrar na sala de cirurgia para ver minha esposa, ela me disse que por ordem do médico, isso não era possível. Perguntei se ela já havia sido anestesiada, e a enfermeira disse que isso só acontece depois que o médico chegar.
 Fiquei imaginando como a Aninha devia estar sofrendo lá sozinha tendo as contrações, e por isso insisti com a enfermeira, ela disse novamente que não seria possível. Esperei então até o médico chegar.
Dez minutos depois passou por mim o Dr. Marcelo, e mais o menos no mesmo tempo chegou o Dr. Sheldon. A Ana me confessou depois que se sentiu muito aliviada quando ouviu a voz do médico, pois além das contrações, ela estava preocupada que o médico sisudo fizesse o parto.
Depois de mais uns quinze minutos fui chamado para acompanhar o parto, estavam presentes o Dr. Sheldon (obstetra), o Dr. Marcelo (pediatra), o Dr. Luiz (anestesista), duas enfermeiras, a Marli (instrumentadora do Dr. Sheldon) e também o Dr. Sisudo.
Fiquei de pé na cabeceira da mesa de cirurgia, perguntei para a Aninha se tudo estava bem, preparei a máquina para as fotos, e em dois minutos já estavam tirando meu filho de sua barriga. Ele saiu com um beiço enorme, parecia que tinha ficado emburrado por ter sido tirado, estranho pois, segundo os médicos, foi ele mesmo quem iniciou o trabalho de parto.
Mas logo depois ele começou a chorar, o obstetra passou o neném para o pediatra que mostrou-o para Aninha, e depois levou-o para a salinha para realizar os exames necessários, no APGAR ele obteve 9 e 9 – como sua irmã – nasceu exatamente às 2:49 do dia 03 de setembro, pesando 3 kg e 10 gramas e medindo 49 cm de comprimento. Eis o Gabriel!

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