terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Nascimento da Mariana

Era por volta das seis da manhã, quando ela me acordou. Trazia nas mãos um absorvente com um pouco de sangue e uma expressão preocupada no rosto:
- Será que é alguma coisa?
Isso não é nada. Eu respondi prontamente. Mas não deu para esconder minha preocupação.
Apesar de havermos feito dois cursos de gestante, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a frase da Dra. Jeanine, a médica da família que acompanhou os primeiros meses de gestação, de que a gravidez era normal e que não havia nada para se preocupar, apenas em caso de sangramento.
Depois eu me lembrei de algum médico que disse: o sangramento só é preocupante quando é constante. O nome desse médico eu não me lembro, pois são tantas informações e opiniões que no fim acaba virando uma salada em nossa cabeça.
Mas, enfim, eu disse para a Aninha: - Vamos observar, se voltar a sangrar você me avisa imediatamente que devemos correr para o hospital.
Neste momento ela me confessou que estava sentindo um pouco de dor no abdômen. Observei logo abaixo de seu umbigo e estava contraído. Pensei novamente na frase de algum médico, aliás, na frase do Dr. Dráusio Varela que fazia a matéria sobre as grávidas no Fantástico: - A contração é como uma pequena cólica passageira, e quando se está em trabalho de parto o intervalo entre as dores vai ficando menor.
Perguntei se a dor já havia passado, e ela me disse que estava passando. Pedi para ela me avisar se voltasse a doer, e comecei a contar mentalmente, li em algum lugar que no trabalho de parto os intervalos das contrações eram de quarenta e cinco segundos. Quando cheguei em um minuto, eu já estava esperando ela me avisar que a dor voltara, mas nada. Aos dois minutos eu já estava quase desistindo, mas, era domingo eu já havia perdido o sono mesmo, não custava contar mais um pouquinho.
Fui contando até aproximadamente quatrocentos quando ela me disse: - Acho que está voltando. Olhei para o rosto dela e ela me disse: - Dói pra caralho! Eu tentei manter a calma e lhe disse: - Em pouco tempo passa. E de fato, quarenta segundos depois passou.
Contei até quatrocentos novamente e não deu outra: Contração de quarenta segundos de duração.
Após mais ou menos uma hora, e algumas contrações, ela foi ao banheiro para verificar se havia mais sangramento, enquanto isso eu fui buscar um relógio para contar melhor o tempo.
Ela saiu do banheiro aliviada: - Nenhum sangue! Eu fiquei aliviado e pensei comigo: - Deve ser um daqueles alarmes falsos que o Dr. Dráusio comentou na TV, que começam com contrações e depois de um tempo vão diminuindo.
Mas para desencargo de consciência, continuei a tomar o tempo, e as dores persistiam no ritmo de sete minutos de intervalo e quarenta segundos de duração.
Não conseguimos dormir mais. E eu fiquei imaginando como seria se a Marianinha resolvesse nascer naquele dia, domingo dezessete de agosto. O parto já tinha sido marcado para o dia seguinte, e deveríamos chegar ao hospital às seis e meia da manhã, ou seja, tínhamos de acordar pelo menos às cinco e meia. Sem contar que na noite seguinte quase impossível de dormir por causa da ansiedade.
Enquanto eu divagava na cama, ela me cutucava: - Está começando de novo! Propus que tomássemos banho, quem sabe isso diminuiria o ritmo das contrações. Mas no fundo eu imaginei que aquele poderia ser o último banho com a neném dentro da barriga, e de qualquer forma, numa emergência, estaríamos preparados.
Propus também que não contássemos nada aos avós, que há uma semana se alojavam em casa, na expectativa do nascimento da Mariana. Uma porque não havia nada concreto, e outra que eles já estavam tão desesperados que se a Ana Paula dissesse "ai!" era capaz de todos correrem - um para cada lado é claro - pegarem as malas e se dirigirem para a maternidade. Só no meio do caminho perceberiam que esqueceram a gestante.
Confesso também que às vezes ajuda demais atrapalha. Quem tem mãe sabe que ela se preocupa com tudo e não deixa você respirar um instante, imagina quatro mães.
Eu queria que minha filha nascesse como manda a tradição cinematográfica romântica - eu tenho esse defeito de pensar minha vida como um filme: estoura a bolsa, o pai fica atrapalhado, pega a esposa (que neste momento está tranqüila) e corre para a maternidade. Depois fica na sala de espera se descabelando enquanto chega o resto dos familiares. Na realidade não é nada disso que acontece.
Primeiro que não há bolsa nenhuma estourando. O pai não fica desesperado com o nascimento. Há uma carreata em direção ao hospital, desde que não haja uma churrascaria no caminho, caso contrário, pára-se para comemorar. Todos os cômodos da casa estão ocupados por familiares na expectativa.
Entretanto, apesar dos pesares, é a primeira neta de ambos os lados, já moramos longe, não é justo privarmos a família desse momento tão importante para eles. Eu sei que sou egoísta nestes momentos e que quero fazer tudo sozinho, mas, o melhor a fazer neste momento, é recebe-los bem, afinal são nossos pais e sempre nos querem bem.
A acomodação durante a semana prévia merece um capítulo à parte, mas em resumo, para mantermos o lado cinematográfico romântico do parto, desde que marcamos a data do parto combinei com os familiares que a ida ao hospital deve ser um momento só nosso - meu, de minha esposa e de minha filha. Eles deveriam ir minutos após nossa acomodação no quarto.
Todos concordaram.
Então, logo após o banho, nos vestimos e tomamos café todos juntos, nós e os futuros avós. Faltava comprar alguns detalhes da decoração do quarto da neném, então o combinado era irmos à feirinha do Largo da Ordem para comprarmos e depois irmos à churrascaria "Fogo de Chão", para o último churrasco de minha filha via cordão umbilical.
Como a Aninha ainda estava sentindo dores, sugeri que ela não fosse à feirinha. Todos concordaram, afinal, uma gestante é sempre uma gestante. Por vezes ela, de tão forte e participativa que era, nem parecia estar grávida, mas uma feira cheia de gente não é lugar de uma gestante às vésperas de parir - não gosto muito desse verbo, mas tinha de encontrar algum lugar para usá-lo, afinal, não dá para falar de um nascimento sem usar o verbo parir.
Meu pai estava com um pouco de dor de cabeça e resolveu também não ir à feirinha. Demos todas as instruções para a compra do material e despachamos as futuras vovós e o futuro vovô.
Continuei contando as contrações e o intervalo diminuiu para cinco minutos. Às vezes eu estava em outro cômodo da casa contando o tempo e no momento exato ela surgia na porta para me dizer que estava começando. Ficou até cômico, pois não queríamos alarmar meu pai, por isso foi um jogo de jóinhas a cada nova contração.
Liguei para o Dr. Sheldon, médico obstetra, mas o celular estava desligado. Então liguei para o Hospital, e a enfermeira me pediu para levar minha esposa para examinar. Tentei ligar novamente para o obstetra e dessa vez ele atendeu, disse que seria importante levar a Aninha para fazer uns exames no Hospital.
A Ana não estava perto, eu verifiquei se tudo que precisávamos estava na mala, e chamei-a num canto. Sem alarme, avisei-a que seria importante irmos ao hospital para um exame, mas que ela ficasse preparada que o parto poderia ser naquele domingo mesmo.
Preparei as malas, e fui para a sala para avisar meu pai. Como eu imaginava ele ficou preocupado, mas prontamente pegou as malas para carregarmos o carro. Ele perguntou se deveria ir junto, mas de comum acordo, decidimos que era melhor ele ficar para avisar o resto do pessoal.
Pronto, lá estava meu filme romântico cinematográfico onde o pai e a mãe encontravam-se sozinhos a caminho do hospital. De repente toca o celular da Ana, e ela me pergunta: - Será que eu devo mentir?
Caso eles não soubessem de nada eu achei melhor mentir, pois dessa forma eles terminariam aquilo que foram fazer na feira e voltariam em segurança para casa.
Realmente, a mãe da Ana não sabia de nada e assim permaneceu durante um tempo.
Chegamos no hospital com toda tranqüilidade, logo fomos encaminhados para a médica de plantão, que já sabia do caso, pois o Dr. Sheldon já havia ligado para o hospital. Examinou a Ana Paula e confirmou que realmente ela tinha contrações, mas que estavam muito fracas para ser considerado um trabalho de parto.
O sangue era resultado de uma pequena dilatação que era tivera. De qualquer forma ela iria ligar para o médico para passar o resultado do exame. Eu perguntei se era possível fazermos o parto no domingo mesmo, pois assim evitaríamos as dores de contrações desnecessárias a uma cesárea.
Ela ligou para o médico, e após alguns minutos de conversa, ficou evidente que o parto seria mesmo naquele dia. Ao desligar o telefone, ela olhou fixamente para a Aninha e disse: Tricotomia!!! Era o pontapé inicial.
Eu saí para acertar os detalhes da internação. Entreguei os papéis e saí para o carro para pegar as malas. Do caminho liguei do celular para minha casa, meu pai me disse que os demais já sabiam que estávamos no hospital e estavam a caminho de casa. Liguei para o celular deles para tranqüilizá-los e avisar que o parto seria mesmo naquele dia, algumas horas mais tarde.
Peguei as coisas no carro, quando voltei para o Hospital a enfermeira já me aguardava para me levar ao quarto. Cheguei no quarto, deixei as coisas e ela me disse que já podia descer para me paramentar (vestir as roupas para assistir a cirurgia), eu me assustei, tinha certeza que o parto iria demorar mais umas horas para acontecer.
Pedi para ficar mais um pouco no quarto para ligar para os avós. Avisei-os então que o parto seria mais rápido do que eu imaginava e que eu já estava sendo chamado para a sala de cirurgia, neste momento todos já se encontravam em casa preparando-se para sair.
Desliguei o telefone e preparei as coisas: deixei tudo na gaveta, preparei a máquina fotográfica e levei a chave para a enfermeira para deixar com os avós.
Desci as escadas preocupado com Ana Paula, a esta altura ela devia estar recebendo a anestesia. Cheguei em uma portinhola onde a enfermeira me pediu para assinar um papel me comprometendo a pagar uma taxinha para assistir ao parto. Assinei, peguei as roupas e entrei no vestiário. Lá dentro encontrei o médico que também estava se paramentando. Terminei de me vestir e fui encaminhado para uma salinha de espera com uma televisão.
Lá eu tive de aguardar um pouco, e como eu estava preocupado em passar mal na sala de cirurgia, resolvi comer umas bolachas e um café com leite bem doce, quem sabe um pouco de glicose me faria bem.
Fiquei assistindo um pouco de TV, estava passando "O Grande Dragão Branco" com Van Daime. Lembrei-me da Aninha que me dizia que detestava filmes do Van Damie e que havia jurado nunca mais assistir filmes com esse ator, mas como não havia mais nada para fazer, fiquei olhando para a TV, sem prestar muita atenção.
Com o tempo, comecei a assistir ao filme e esquecer tudo que estava ao redor. Numa determinada cena do filme, o ator estava se preparando para lutar, fazendo concentração numa abertura total - cena tradicional dos filmes desse ator - quando o coadjuvante olhou para ele e fez uma brincadeirinha: - É melhor você parar de praticar isso se quiser ser pai um dia! Foi aí que eu me lembrei onde estava e o que estava fazendo ali.
Resolvi aproveitar o espelho que estava em minha frente para tirar uma foto minha antes do parto, a máquina fotográfica falhou. Aproveitei que tinha tempo para conferir se o filme estava bem posicionado e testei-a novamente. Excelente! Se ela falhasse no meio do parto seria impossível pedir para repetir a pose.
Então o médico me chamou, e lá estava ela, Ana Paula, deitada na mesa de cirurgia me aguardando, sorriu quando me viu todo paramentado. Cumprimentei os médicos, mas não havia lugar para eu sentar na cabeceira da Ana Paula.
De pé, pude ver parte da cirurgia. Acompanhei o primeiro corte e não me senti mal. Resolvi permanecer de pé.
Os médicos colocaram uns drenos dentro da barriga da Aninha, quando o obstetra exclamou: Lá vem ela! Em seguida o dreno começou a sugar um líquido escuro que supus ser o líquido amniótico com um pouco de sangue. O anestesista começou a empurrar a barriga com as mãos e em pouco tempo surgiu a cabecinha cabeluda da Marianinha. Comecei a fotografar.
Em poucos segundos seu corpo já estava todo fora, e ela começou a balbuciar - não era bem um choro, acho que mais uma reclamação, pois ela devia estar bem quentinha ali dentro.
Os médicos cortaram seu cordão umbilical e apresentaram-nos à Marianinha. Às 13:56 horas do dia 17 de agosto de 2003, pesando 3kg e 40g e medindo aproximadamente 46,5cm, nasceu no Hospital Maternidade Nossa Senhora de Fátima em Curitiba, Mariana El-Memari Públio, perfeita e cheia de saúde.
Depois, o médico saiu apressado e eu perguntei se podia acompanhá-lo, ele me disse que sim. Olhei para a Aninha para ver se tudo estava bem e ela me disse: Vai ver nossa filha!
Cheguei numa salinha logo ao lado e o médico estava massageando a Marianinha, pegando seus braços e depois passando o dedo nos seus pés. Limpou o líquido que havia em sua garganta e narinas. Embrulhou-a e levou-a de volta para a Aninha. Nesse momento tiramos mais fotos.
A Marianinha voltou para um berço aquecido e então eu não queria mais sair de perto dela. Tirei diversas fotos e conversei bastante com ela. Ela ficava me olhando e me analisando. A cada nova disparada do flash ela fechava os olhos com força e depois ia reabrindo-os meio desconfiada.
Voltei para a sala de cirurgia para ver se minha esposa estava bem. Os médicos já haviam retirado a placenta e já estavam realizando a sutura.
A Aninha começou a tremer por causa da anestesia, os médicos foram prontos em colocar sobre ela alguns panos aquecidos para diminuir a tremedeira. Seus lábios estavam pálidos e por esse motivo eu fiquei um pouco preocupado. Perguntei sobre sua pressão e o anestesista disse que estava em onze por nove - quando ela entrou no hospital sua pressão estava dez por seis, o que o médico indicou como sendo seu normal.
Em pouco tempo Ana Paula se recuperou, mas a tremedeira não cessou totalmente, apenas diminuiu. O anestesista me disse que isso era normal e que nunca vira um casal tão tranqüilo numa sala de cirurgia, é evidente que ele diz isso para todos os casais, mas de qualquer forma isso fez bem para o nosso ego.
Enquanto os médicos faziam a sutura, eu ficava perambulando entre a sala que se encontrava minha filha e a sala que se encontrava minha esposa.
Numa das passagens pela sala onde estava Marianinha, perguntei para a enfermeira qual tinha sido o APGAR de minha filha - pontuação realizada no primeiro e no quinto minuto de vida da criança, coisas que aprendemos nesses cursinhos de gestante e que possuem eficácia questionável por alguns médicos - ela me disse que o seu APGAR havia sido nove e nove, e que o Dr. Marcelo nunca dava dez.
Cabe aqui um elogio aos médicos que acompanharam o obstetra Dr. Sheldon: Dr. Douglas o anestesista e Dr. Marcelo Lobo o pediatra neonatologista.
Todos muito talentosos, atenciosos e o que mais nos chamou a atenção - mas que não tira em nada o mérito deles, apenas acrescenta - a idade deles, bastante novos. O Dr. Sheldon nos disse posteriormente que emergências aos domingos sempre ficam a cargo do pessoal mais novo.
Finalizada a sutura, inicia-se o processo de limpeza da paciente, neste momento eu vi o corte fechado e percebi uma precisão impecável. Os médicos estavam abandonando a sala, quando a enfermeira me pediu para também sair, eu perguntei se não podia ficar, e ela me disse que não. Mais tarde ela disse para minha esposa que dificilmente os pais ficam mais tempo do que preciso na sala de cirurgia.
Por falar na enfermeira, ocorreu um fato cômico que eu não presenciei, a Aninha me contou que quando a enfermeira foi colocar iodo sobre ela, derramou tanto que até sujou a testa do anestesista (Dr. Douglas) e que os demais médicos tiraram sarro, o clima foi de tanta descontração que nem parecia uma cirurgia.
Chegando no quarto encontrei todos os avós ansiosos, ávidos por detalhes, mas como não sou muito de falar, contei meio por cima o que havia ocorrido.
Pouco tempo depois chegou a Ana Paula na maca junto com a pessoa mais esperada dos últimos nove meses: Mariana.

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