quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Meu contato com a leitura

Lembro-me vagamente do meu processo de alfabetização. Não consigo lembrar precisamente qual foi meu primeiro contato com as letras escritas, acredito que tenha sido no Colégio Imaculada Conceição na pacata cidade de Itapetininga onde meu pai fora transferido a trabalho. Nessa época eu já possuía a experiência e esperteza de uma pessoa de quase 4 anos.
Antes desse período tenho vagas lembranças de como era minha vida na minha cidade natal, Sorocaba, onde nasci e acabei retornando com meus pais após aproximadamente 5 anos de vida em Itapetininga. Lembro-me do nome de minha primeira escolinha: Santa Escolástica – mas não sei se essa lembrança é minha ou se colocaram em minha cabeça.
Refletindo um pouco, acredito que meu contato com a escrita não tenha sido tão empolgante como eu imaginava. Devo ter passado anos desenhando letras em meu caderno de caligrafia e decorando seus sons, e depois tinha que juntar as letrinhas para dar outros novos sons. Não entendia direito porque tinha que fazer aquilo, nem tampouco por que o capricho no desenho das letras? As primeiras letras desenhadas eram fáceis, pois tínhamos o pontilhado como suporte, mas depois que o pontilhado desparecia, era um sofrimento. Como seria bom se as letras viessem sempre com pontilhado de fundo.
Eu sempre fui muito curioso e perguntava bastante. Infelizmente minha professora não conseguiu me explicar o porquê da família do “C” ser tão complicada. O ca, o co e o cu eram perfeitamente entendíveis, mas e o ce e ci? Por acaso eram adotados? Por isso não tinham o mesmo tipo de pronúncia do resto da família?
Enfim, essa dúvida nunca me fora resolvida completamente, e percebo que ela continua existindo na mente de muita gente, inclusive vejo o mesmo fato ao acompanhar de perto a alfabetização dos filhos. É um mundo fascinante ver como as crianças percebem as letras, os sons e os significados!
Após o martírio de desenhar as letras caprichosamente, veio a fase da leitura. Essa não me pareceu muito complicada, lembro-me do primeiro livro que li, meu peixinho dourado. Depois vieram outros livros infantis, mas não foram muito marcantes, caso contrário lembrar-me-ia deles.
Vieram depois os livros infanto-juvenis, desses os mais marcantes foram escritos por Marcos Rey: O escaravelho do Diabo, O cadáver ouve rádio, entre outros livros pseudopoliciais interessantes. Havia também na coleção vaga-lume um tal de cachorrinho samba, esses eu não tinha muita paciência em ler. Lia por obrigaçnao mesmo.
Nessa mesma época, apareceu em minha casa um vendedor de enciclopédias da editora Delta Larousse que convenceu meu pai a investir na coleção completa mais uma série especial chamada: “O mundo da criança”.
Quando a encomenda chegou, nem esperei para tirar da caixa e comecei a devorar o mundo da criança, primeiro os livros de ciência: Como as coisas funcionam, de onde vem as coisas, o corpo humano, a história do mundo, os dinossauros, as sete maravilhas do mundo antigo, os fenômenos da natureza – nesse último passei umas três ou quatro noites com medo de dormir por causa dos furacões e terremotos. Depois fui para os livros mais leves como contos e fábulas, poemas e rimas, etc.
Quando acabei de ler as enciclopédias infantis, tentei migrar para as de adulto, mas meu pai me proibiu dizendo que eu estragava as orelhas dos livros, se eu quisesse ler era para pedir para ele. E assim fizemos em algumas noites, eu solicitava um livro e ele se encarregava em pegar da estante, e ele mesmo tinha de devolver pois eu empurrava os livros para trás ao devolvê-los e tirava-os do alinhamento. Enciclopédias, além do aprendizado, tinha uma grande função estética na estante.
Na escola estávamos lendo os livros para o vestibular: Graciliano Ramos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, entre outros. Confesso que não gostava muito desses livros, e quando apareciam os resumos eu era um dos primeiros a ler.
Eu gostava mesmo era dos poetas, dos trovadores, das cantigas de escárnio e de difamação, de Gregório de Matos e Camões, eu gostava até de fazer escansão dos versos em decassílabos soltos e decassílabos heroicos, redondilhas maiores e menores, nomes esses que se encrustaram em minha memória sem muita função aparente e que ficam ocupando lugar em meu singelo HD.
Frequentei também, por imposição de meus pais, aulas de datilografia para redigir ofícios, currículos e cartas comerciais, além – e principalmente – de decorar a posição das letras no teclado: ASDFG... Para a época era uma habilidade muito útil.
Existem coisas que podemos escolher, mas existem outras que nossos pais, com sua experiência nos impõem, e levamos alguns anos para valorizar essas decisões alheias à nossa vontade. Como diz a canção: “se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho”
No terceiro ano do colegial tínhamos aulas extras de redação como reforço para o vestibular, estas eram muito interessantes principalmente por que eu era taxado em minha família como: “o bom em exatas”, mas “não tão bom em redação”. Na oitava série eu havia prestado dois vestibulares para cursos preparatórios militares sem muito sucesso e com baixas notas em redação. O que me motivou a estudar e me dedicar mais a essa área.
Mas meu verdadeiro gosto pela leitura veio na faculdade. Lá tudo era novidade, os textos – na verdade fragmentos de livros fotocopiados – traziam uma linguagem estranha e diferente, quase não parecia minha língua materna. Eu lia Foucault, Freud, Barthes, Adam Smith, Labini, Eisenstein, Gracioso, Michael Porter, Kotler, etc... além de Roger Von Oeck, num livro de criatividade chamado um Tok na Cuca.
Eu adorava passar as tardes na biblioteca, ou lendo livros aleatórios ou revirando anuários e referencias de design e fotografia para me ajudar na composição visual de minha comunicação.
Nesse período passei a assinar um Jornal semanal de Propaganda chamado: Meio e Mensagem, confesso que foi a única parte de minha vida que li assiduamente um jornal, afinal eu sabia de muita coisa de minha área antes de meus colegas e isso fazia me sentir superior. Valia o investimento. Hoje confesso que a maioria das informações do cotidiano vêm através das redes sociais (não confunda com mídias sociais, isso é apenas um meio para viabilizar a rede social) e da Internet.
Comecei então a frequentar SeBos e comprar livros de segunda mão (SEcondhand BOoks), um desses livros ensinava o desenho de letras e comecei a me interessar por caligrafia para desenhar as letras e deixar minhas cartas, cartazes e materiais publicitários mais bonitos, outro curioso livro que comprei chamava-se o livro das perguntas – até hoje procuro o livro das respostas, mas acho que não era a intenção do autor.
Por indicação de um ex chefe, li o Tao da Física, um livro que me marcou bastante pelo interessante paralelo entre a física a as filosofias orientais. Depois li outros livros de Capra, inclusive o Conhecimento Incomum, por meio do qual ele narra seus contatos com gente influente que o inspirou no seu “Ponto de Mutação”. Ele inclusive conta como alguns cientistas e pesquisadores gostam de ter suas ideias confrontadas para buscar argumentos para sustenta-las.
Depois de um tempo formado, busquei um mestrado. Lá ou você gosta de ler, ou gosta de ler. Inclusive é curioso como depois de um tempo lendo livros técnicos e acadêmicos você acaba tendo necessidade de poesia e literatura. Lembro-me das últimas semanas antes de entregar minha dissertação eu tinha que ler muito, mas estava cansado de tanto ler, e para relaxar lia Contos de Machado de Assis ou Fernando Sabino.
Enfim, como professor li e reli e continuo lendo diversos livros, e agora posso dizer inclusive que a leitura é uma paixão, apesar de que não possuo muito tempo para lê-los. Depois de casado e com filhos é meio difícil encarar a leitura, parece um afastamento do mundo real, um isolamento. Assistir TV passa a ser um ato coletivo, já ler, bem... é uma atividade extremamente individual, quase que clandestina dentro de uma micro-sociedade como a família.
Agora com as crianças em fase de alfabetização, retomei a leitura em voz alta e coletivamente. Reli “Marcelo, Marmelo, Martelo” de Ruth Rocha com outros olhos e nova cabeça e posso dizer, sem sombra de dúvidas, que trata-se do melhor livro de semiótica que já li, mas só pude perceber isso depois de alguns anos acumulando repertório.
Retomei leitura de mitologia grega e das fábulas de Esopo para meus filhos pois acredito que isso poderá ser muito importante para eles no futuro. E sempre que arranjo um tempo, dedico-me a minha leitura, desde curiosidades diversas até livros para minha profissão de professor. Já quando não estou lendo, leio e-mails, sites, blogs, msn, Facebook ou placas de rua.

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