Ex boçøs
Um espaço para narrar outros fatos relevantes reais ou imaginários, e que nada tem a ver com propaganda.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Meu contato com a leitura
Antes desse período tenho vagas lembranças de como era minha vida na minha cidade natal, Sorocaba, onde nasci e acabei retornando com meus pais após aproximadamente 5 anos de vida em Itapetininga. Lembro-me do nome de minha primeira escolinha: Santa Escolástica – mas não sei se essa lembrança é minha ou se colocaram em minha cabeça.
Refletindo um pouco, acredito que meu contato com a escrita não tenha sido tão empolgante como eu imaginava. Devo ter passado anos desenhando letras em meu caderno de caligrafia e decorando seus sons, e depois tinha que juntar as letrinhas para dar outros novos sons. Não entendia direito porque tinha que fazer aquilo, nem tampouco por que o capricho no desenho das letras? As primeiras letras desenhadas eram fáceis, pois tínhamos o pontilhado como suporte, mas depois que o pontilhado desparecia, era um sofrimento. Como seria bom se as letras viessem sempre com pontilhado de fundo.
Eu sempre fui muito curioso e perguntava bastante. Infelizmente minha professora não conseguiu me explicar o porquê da família do “C” ser tão complicada. O ca, o co e o cu eram perfeitamente entendíveis, mas e o ce e ci? Por acaso eram adotados? Por isso não tinham o mesmo tipo de pronúncia do resto da família?
Enfim, essa dúvida nunca me fora resolvida completamente, e percebo que ela continua existindo na mente de muita gente, inclusive vejo o mesmo fato ao acompanhar de perto a alfabetização dos filhos. É um mundo fascinante ver como as crianças percebem as letras, os sons e os significados!
Após o martírio de desenhar as letras caprichosamente, veio a fase da leitura. Essa não me pareceu muito complicada, lembro-me do primeiro livro que li, meu peixinho dourado. Depois vieram outros livros infantis, mas não foram muito marcantes, caso contrário lembrar-me-ia deles.
Vieram depois os livros infanto-juvenis, desses os mais marcantes foram escritos por Marcos Rey: O escaravelho do Diabo, O cadáver ouve rádio, entre outros livros pseudopoliciais interessantes. Havia também na coleção vaga-lume um tal de cachorrinho samba, esses eu não tinha muita paciência em ler. Lia por obrigaçnao mesmo.
Nessa mesma época, apareceu em minha casa um vendedor de enciclopédias da editora Delta Larousse que convenceu meu pai a investir na coleção completa mais uma série especial chamada: “O mundo da criança”.
Quando a encomenda chegou, nem esperei para tirar da caixa e comecei a devorar o mundo da criança, primeiro os livros de ciência: Como as coisas funcionam, de onde vem as coisas, o corpo humano, a história do mundo, os dinossauros, as sete maravilhas do mundo antigo, os fenômenos da natureza – nesse último passei umas três ou quatro noites com medo de dormir por causa dos furacões e terremotos. Depois fui para os livros mais leves como contos e fábulas, poemas e rimas, etc.
Quando acabei de ler as enciclopédias infantis, tentei migrar para as de adulto, mas meu pai me proibiu dizendo que eu estragava as orelhas dos livros, se eu quisesse ler era para pedir para ele. E assim fizemos em algumas noites, eu solicitava um livro e ele se encarregava em pegar da estante, e ele mesmo tinha de devolver pois eu empurrava os livros para trás ao devolvê-los e tirava-os do alinhamento. Enciclopédias, além do aprendizado, tinha uma grande função estética na estante.
Na escola estávamos lendo os livros para o vestibular: Graciliano Ramos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, entre outros. Confesso que não gostava muito desses livros, e quando apareciam os resumos eu era um dos primeiros a ler.
Eu gostava mesmo era dos poetas, dos trovadores, das cantigas de escárnio e de difamação, de Gregório de Matos e Camões, eu gostava até de fazer escansão dos versos em decassílabos soltos e decassílabos heroicos, redondilhas maiores e menores, nomes esses que se encrustaram em minha memória sem muita função aparente e que ficam ocupando lugar em meu singelo HD.
Frequentei também, por imposição de meus pais, aulas de datilografia para redigir ofícios, currículos e cartas comerciais, além – e principalmente – de decorar a posição das letras no teclado: ASDFG... Para a época era uma habilidade muito útil.
Existem coisas que podemos escolher, mas existem outras que nossos pais, com sua experiência nos impõem, e levamos alguns anos para valorizar essas decisões alheias à nossa vontade. Como diz a canção: “se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho”
No terceiro ano do colegial tínhamos aulas extras de redação como reforço para o vestibular, estas eram muito interessantes principalmente por que eu era taxado em minha família como: “o bom em exatas”, mas “não tão bom em redação”. Na oitava série eu havia prestado dois vestibulares para cursos preparatórios militares sem muito sucesso e com baixas notas em redação. O que me motivou a estudar e me dedicar mais a essa área.
Mas meu verdadeiro gosto pela leitura veio na faculdade. Lá tudo era novidade, os textos – na verdade fragmentos de livros fotocopiados – traziam uma linguagem estranha e diferente, quase não parecia minha língua materna. Eu lia Foucault, Freud, Barthes, Adam Smith, Labini, Eisenstein, Gracioso, Michael Porter, Kotler, etc... além de Roger Von Oeck, num livro de criatividade chamado um Tok na Cuca.
Eu adorava passar as tardes na biblioteca, ou lendo livros aleatórios ou revirando anuários e referencias de design e fotografia para me ajudar na composição visual de minha comunicação.
Nesse período passei a assinar um Jornal semanal de Propaganda chamado: Meio e Mensagem, confesso que foi a única parte de minha vida que li assiduamente um jornal, afinal eu sabia de muita coisa de minha área antes de meus colegas e isso fazia me sentir superior. Valia o investimento. Hoje confesso que a maioria das informações do cotidiano vêm através das redes sociais (não confunda com mídias sociais, isso é apenas um meio para viabilizar a rede social) e da Internet.
Comecei então a frequentar SeBos e comprar livros de segunda mão (SEcondhand BOoks), um desses livros ensinava o desenho de letras e comecei a me interessar por caligrafia para desenhar as letras e deixar minhas cartas, cartazes e materiais publicitários mais bonitos, outro curioso livro que comprei chamava-se o livro das perguntas – até hoje procuro o livro das respostas, mas acho que não era a intenção do autor.
Por indicação de um ex chefe, li o Tao da Física, um livro que me marcou bastante pelo interessante paralelo entre a física a as filosofias orientais. Depois li outros livros de Capra, inclusive o Conhecimento Incomum, por meio do qual ele narra seus contatos com gente influente que o inspirou no seu “Ponto de Mutação”. Ele inclusive conta como alguns cientistas e pesquisadores gostam de ter suas ideias confrontadas para buscar argumentos para sustenta-las.
Depois de um tempo formado, busquei um mestrado. Lá ou você gosta de ler, ou gosta de ler. Inclusive é curioso como depois de um tempo lendo livros técnicos e acadêmicos você acaba tendo necessidade de poesia e literatura. Lembro-me das últimas semanas antes de entregar minha dissertação eu tinha que ler muito, mas estava cansado de tanto ler, e para relaxar lia Contos de Machado de Assis ou Fernando Sabino.
Enfim, como professor li e reli e continuo lendo diversos livros, e agora posso dizer inclusive que a leitura é uma paixão, apesar de que não possuo muito tempo para lê-los. Depois de casado e com filhos é meio difícil encarar a leitura, parece um afastamento do mundo real, um isolamento. Assistir TV passa a ser um ato coletivo, já ler, bem... é uma atividade extremamente individual, quase que clandestina dentro de uma micro-sociedade como a família.
Agora com as crianças em fase de alfabetização, retomei a leitura em voz alta e coletivamente. Reli “Marcelo, Marmelo, Martelo” de Ruth Rocha com outros olhos e nova cabeça e posso dizer, sem sombra de dúvidas, que trata-se do melhor livro de semiótica que já li, mas só pude perceber isso depois de alguns anos acumulando repertório.
Retomei leitura de mitologia grega e das fábulas de Esopo para meus filhos pois acredito que isso poderá ser muito importante para eles no futuro. E sempre que arranjo um tempo, dedico-me a minha leitura, desde curiosidades diversas até livros para minha profissão de professor. Já quando não estou lendo, leio e-mails, sites, blogs, msn, Facebook ou placas de rua.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
O Nascimento do Gabriel
Isso me faz lembrar uma frase enunciada há muitos anos, antes mesmo do nascimento de Cristo, por um filósofo que, se não me falha a memória, chamava-se Heráclito, O Obscuro: “um homem nunca pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. Uma das razões óbvias é que as águas do rio mudam a cada fração de segundo, mas o mais importante é que o homem também muda, crescendo a cada nova experiência.
É incrível como o tempo nos faz pensar diferente, note que não estou me referindo a um tempo muito extenso, mas apenas dois anos de experiência, o que já são suficientes para se perceber uma gigantesca mudança – tanto nas águas do rio, quanto no homem – como diria nosso amigo obscuro.
Com a experiência, aprendi a valorizar mais o apoio da família e passei até a necessitar mais dele. Percebi que a união da família é muito importante, mesmo apesar do fato de que cada um tem uma opinião diferente e se adianta a pronunciá-la em altos brados, todos ao mesmo tempo.
Voltando a narração, estava tudo preparado para contar com o apoio deles: “a família”, principalmente dos avós; que apesar de serem de outros tempos e com costumes diferentes, aprenderam os novos costumes por imposição nossa e de nosso rígido “Dr. Marcelo”.
Dessa vez, tudo estava diferente. Ao invés de estarmos ansiosos aguardando a hora “H” para sairmos todos correndo, como descrito anteriormente, estávamos tranqüilos esperando o tempo passar. Os avós estavam em suas cidades e nós – eu e a Aninha – seguíamos nossa rotina.
Percebemos que de nada adianta ficar pré-ocupado demais, isso só dificulta o raciocínio. Tanto é verdade que, da primeira vez, a cada visita ao médico eu ficava planejando o que fazer quando ele decidir internar minha esposa para o parto. E ele te frustra mandando você retornar somente dali a quinze dias.
Então dessa vez, nada de ansiedades, nada de ficar planejando tudo com antecedência, nada de sofrer de véspera (como um peru), nada de sair correndo no meio da noite, nada de nada. Agora somos experientes, sabemos planejar, sabemos o que precisa e o que não precisa. Sabemos tanto, que ainda nem fizemos as malas para a maternidade.
Fomos ao médico para fazer o acompanhamento de rotina, e esperávamos voltar lá, como de costume, em quinze dias – por volta do dia doze de setembro, quando o bebê estivesse com quase quarenta semanas – mas qual não foi a nossa surpresa quando ele nos pediu para voltar em uma semana para marcar os últimos detalhes do parto. O quê? Meu filho vai nascer na semana que vem?
Somente nesta última semana caiu a ficha de que minha família estava crescendo: em breve haveria um choro diferente, haveriam duas crianças correndo pela casa, e minha conta nas churrascarias, que há pouco eram individuais, seriam multiplicadas por quatro, e por seis quando vierem os namorados. Nossa! Estou envelhecendo!
Com a notícia de que o bebê estava a caminho, corremos para verificar o que precisaria de material para a maternidade e, graças à competência e agilidade da Ana Paula, faltavam poucas coisas.
Durante a última semana, empenhamo-nos em preparar os detalhes para que no fim de semana recebêssemos os avós. É... Você leu direito sim! Está escrito “no fim de semana” mesmo. Se fossem outros tempos eles já estariam aqui há semanas!
Ainda na sexta-feira dia vinte e nove de agosto ligamos para os avós, esperávamos que eles viessem passar a última semana junto conosco, mas eles tinham que resolver coisas e só viriam para cá na véspera da data marcada.
Gostaríamos também que o pediatra da Mariana – Dr. Marcelo – acompanhasse o parto, e por isso começamos a encaminhar e-mails para ele a fim de conseguirmos coincidir horários de agrado entre ele e o Dr. Sheldon, o obstetra. Depois de muitos e-mails somente por volta de quinta-feira, conseguimos conciliar os dias e horários. Ficou então marcado para o final da tarde de segunda-feira, dia cinco de setembro.
Depois do último encontro com Dr. Sheldon no consultório, na sexta-feira dia dois de agosto, aproveitamos a tarde para cuidar dos detalhes finais. Era um dia animado, principalmente porque realizamos na véspera a uretrocistografia na Mariana e descobrimos que o seu refluxo vesico-ureteral havia encerrado (eu sei que são palavras estranhas, mas estão aqui para eu me lembrar no futuro). Trocando em miúdos, não precisaria mais tomar Wintomylon todos os dias (antibiótico profilático) como temos feito há um ano e meio.
Apesar de animado foi um dia cansativo, pois andamos bastante pelo centro da cidade e inacreditavelmente fazia bastante sol. Ao fim do dia pegamos a Mariana na escolinha, jantei e fui trabalhar, coincidentemente, a Aninha havia preparado uma sopa naquele dia, exatamente como o médico sugeriu para segunda-feira no dia do parto.
Ao chegar na sala de aula, lembrei-me do celular que havia esquecido no carro. Há dois dias a Aninha vem sentindo dores de contração, nada ritmado ainda, nem o médico tinha se preocupado muito com esta informação, mas não custa prevenir. Voltei, peguei o celular e voltei à aula, que transcorreu tranqüilamente.
Ao retornar a casa, as duas – Aninha e Marianinha – estavam descansando no sofá. Tomei um banho, comi um pouco mais de sopa, A Aninha acordou, conversei com ela um pouco e ela resolveu dormir. Antes de ir para a cama, perguntei-lhe se havia sentido alguma contração durante minha ausência. Ela me respondeu que não.
Assisti um pouco de TV, e resolvi levar a Marianinha para cama. Levei um susto tremendo quando eu vi a Aninha – que não tem o costume de se levantar à noite – no meio da escuridão, toda de branco, andando lentamente no corredor. Pois há alguns dias passei algumas horas com minha sogra argumentando sobre minha opinião acerca da existência de almas que se tornam visíveis no meio da noite, mas isso não vem ao caso agora.
A Aninha me disse que estava tendo contrações, eu nem dei muita bola, pois ela havia caminhado o dia todo e devia ser reação do cansaço, afinal não deve ser fácil carregar uma barriga de nove meses pelo centro de Curitiba.
Finalmente, coloquei a Marianinha na cama e a Ana surgiu dizendo que estava com contrações novamente, eu sugeri para irmos para a cama relaxar, pois o médico havia dito que a contração pode ser conseqüência da posição que se encontra o bebê.
Dali a pouco, ela sentou na cama e começou a se contorcer, eu resolvi então medir o ritmo. Em sete minutos ela teve outra, e depois outra, e depois outra, e pela sua expressão, parecia que a dor era intensa.
Comecei a traçar um plano de emergência, se necessário a Mariana fica no quarto da Maternidade comigo enquanto a Ana vai para a sala de parto. Quando comentei isso, a Ana ficou brava – e com razão – pois haviam diversas opções com quem deixar a Mariana, além do mais, ela precisava de meu apoio na sala de parto, depois da bronca mais uma contração.
Liguei para o médico e... – fora da área. – Pronto! Só falta agora ele estar fora da cidade, pensei. Tentei de novo e... – fora da área! De novo e... – fora da área! De novo e... – MAIS UMA CONTRAÇÃO!
– Vamos então para a maternidade para examinar o que está acontecendo e se necessário ficamos por lá mesmo, sugeri.
Liguei para o Alexandre, meu vizinho, e pedi para deixar a Marianinha lá. Ele demorou para entender o que estava acontecendo – afinal já era meia-noite – mas depois que entendeu se propôs a vir buscá-la. Tarde demais, eu já estava no elevador com ela no colo e as coisas dela nas mãos, a caminho do apartamento dele. Lá ele e Carina, sua esposa, atenderam-me prontamente, coloquei a Marianinha na cama e voei de volta para casa.
Chegando em casa, peguei as malas, e desci correndo para o carro – Ops! Esqueci-me de Perguntar como estava a Ana. Nesse meio tempo ela deve ter tido mais umas duas contrações. Quando voltei para casa, a Aninha estava pronta, sentada no sofá tendo outra contração.
Entramos no carro, ela já havia ligado para a mãe dela, e eu resolvi ligar para minha mãe. Mas antes vou tentar falar com o médico e... – fora da área!
Liguei então para minha mãe para contar o que estava acontecendo, ela atendeu como se fosse algo normal, cadê aquele desespero do primeiro parto? No caminho da maternidade, mais uma contração.
Acho que esse negócio devia chamar-se contorção, pois a Aninha se contorcia no banco do carro, e a gente se sente impotente pois não há nada a fazer, a não ser dizer a irritante frase: – Calma que vai passar!
Subindo a Visconde de Guarapuava, em direção a Maternidade Nossa Senhora de Fátima, eu lembrei de meu antigo sonho holywoodiano de correr sozinho com minha esposa para a maternidade para ganhar meu filho. Entretanto, ironicamente, desta vez eu sinceramente não queria que fosse assim. Respirei fundo e resolvi encarar, afinal não tinha outro jeito. E em meio às divagações, outra contorção – Bem vindo ao mundo real! Como diria Morpheus.
Perguntei para a Aninha se ela tinha se alimentado somente de sopa, como o médico sugeriu, e ela me confessou que fora visitar Dola, nossa vizinha libanesa, e como de costume ela lhe oferecera muita coisa para comer. Esta nossa vizinha, muito simpática, é daquelas pessoas que sabe receber muito bem, e sempre tem algo delicioso para comermos, é impossível ficar indiferente na casa dela.
Chegamos na maternidade e fomos prontamente atendidos. Entramos numa salinha para exame, a Ana despiu-se, colocou aquele aventalzinho horrível de paciente, e eu contei o tempo novamente, os intervalos entre as contorções haviam diminuído para cinco minutos. Percebi que a hora do parto estava chegando e como da outra vez, em pouco tempo entraria pela porta a simpática médica de plantão, e depois de um breve exame, ligaria para o Dr. Sheldon e estaria tudo pronto.
O tempo passou, e nada. Duas contorções e meia depois, entrou pela porta um médico sisudo – não sei se ele era sisudo mesmo ou se estava assim por causa do plantão.
Eu disse: – Boa noite! Mas ele não respondeu, disse brevemente o seu nome – que eu nem consegui entender – disse que era o médico de plantão, e perguntou rispidamente: – O que está acontecendo? – Acho que estou entrando em trabalho de parto, respondeu a Aninha timidamente.
Após algumas perguntas e algumas contorções, ele se aproximou para examiná-la. Perguntou por que ela tinha tido cesárea na primeira gestação, e por que não parto normal – pareceu-me que ele era um defensor do parto normal, eu não tenho nada contra sua opinião, sei das vantagens e desvantagens do parto normal, mas ali não era nem a hora e nem o lugar para decidir isso, essa era uma discussão que deveria ter acontecido antes, no consultório durante o pré-natal, e aconteceu, com o médico que a gente escolheu para o parto, não ele – então tentei pensar uma estratégia caso não conseguisse falar com nosso médico.
Enquanto isso, o Dr. sisudo pediu para a Aninha deitar-se para ser examinada, ao ter contrações ela perguntou se poderia sentar-se para ficar numa posição mais cômoda, e ele respondeu: – Não! Sem justificar sua resposta.
Ela disse que doía muito, então ele disse: – Isso não é nada ainda! Nesse momento eu já não sabia mais quem iria fazer o parto de meu filho, mas eu já tinha certeza absoluta de quem certamente não o faria! Como me disseram uma vez: “Coitado daquele, que um dia, teve que ficar exclusivamente nas mãos de um policial, um médico, ou um advogado”.
O médico sisudo foi ao telefone: – Quero falar com o Sheldon... Após uns segundos que mais pareciam uma eternidade o silêncio foi rompido – Sheldon? Eu estou com uma paciente sua!
Quando ouvi esta frase, senti um alívio tão grande que parecia que meu filho já havia nascido, e acho que a Aninha também, quando vi sua expressão. Acho até que sua próxima contração nem tenha sido tão intensa quanto as outras.
O médico sisudo desligou o telefone, iniciou os preparativos para o parto e nos informou que em breve – e graças ao anjo Gabriel – o Dr. Sheldon estaria ali. Eu dei um beijo na Aninha, pois eu sabia que somente voltaria a vê-la anestesiada na sala de cirurgia e saí para acertar os detalhes do internamento.
Assinei uns papéis, estacionei o carro, liguei para o pediatra, liguei para os avós, levei as coisas para o quarto, preparei a máquina fotográfica, tentei fazer tudo isso o mais rápido possível, pois se os médicos chegassem eu não queria ser o fator que iria atrasar o parto, além disso, nesse meio tempo a Aninha já deve ter tido umas dez contorções.
Do quarto eu fui chamado para me vestir e me preparar para a sala de cirurgia, coloquei as roupas e esperei ser chamado, nesse tempo resolvi ligar para meus irmãos, eram duas horas da manhã eu não costumo incomodar, mas era um momento especial e eu queria que eles participassem, mesmo à distancia.
Depois eu pedi para a enfermeira deixar eu entrar na sala de cirurgia para ver minha esposa, ela me disse que por ordem do médico, isso não era possível. Perguntei se ela já havia sido anestesiada, e a enfermeira disse que isso só acontece depois que o médico chegar.
Fiquei imaginando como a Aninha devia estar sofrendo lá sozinha tendo as contrações, e por isso insisti com a enfermeira, ela disse novamente que não seria possível. Esperei então até o médico chegar.
Dez minutos depois passou por mim o Dr. Marcelo, e mais o menos no mesmo tempo chegou o Dr. Sheldon. A Ana me confessou depois que se sentiu muito aliviada quando ouviu a voz do médico, pois além das contrações, ela estava preocupada que o médico sisudo fizesse o parto.
Depois de mais uns quinze minutos fui chamado para acompanhar o parto, estavam presentes o Dr. Sheldon (obstetra), o Dr. Marcelo (pediatra), o Dr. Luiz (anestesista), duas enfermeiras, a Marli (instrumentadora do Dr. Sheldon) e também o Dr. Sisudo.
Fiquei de pé na cabeceira da mesa de cirurgia, perguntei para a Aninha se tudo estava bem, preparei a máquina para as fotos, e em dois minutos já estavam tirando meu filho de sua barriga. Ele saiu com um beiço enorme, parecia que tinha ficado emburrado por ter sido tirado, estranho pois, segundo os médicos, foi ele mesmo quem iniciou o trabalho de parto.
Mas logo depois ele começou a chorar, o obstetra passou o neném para o pediatra que mostrou-o para Aninha, e depois levou-o para a salinha para realizar os exames necessários, no APGAR ele obteve 9 e 9 – como sua irmã – nasceu exatamente às 2:49 do dia 03 de setembro, pesando 3 kg e 10 gramas e medindo 49 cm de comprimento. Eis o Gabriel!
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O Nascimento da Mariana
Era por volta das seis da manhã, quando ela me acordou. Trazia nas mãos um absorvente com um pouco de sangue e uma expressão preocupada no rosto:
- Será que é alguma coisa?
Isso não é nada. Eu respondi prontamente. Mas não deu para esconder minha preocupação.
Apesar de havermos feito dois cursos de gestante, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a frase da Dra. Jeanine, a médica da família que acompanhou os primeiros meses de gestação, de que a gravidez era normal e que não havia nada para se preocupar, apenas em caso de sangramento.
Depois eu me lembrei de algum médico que disse: o sangramento só é preocupante quando é constante. O nome desse médico eu não me lembro, pois são tantas informações e opiniões que no fim acaba virando uma salada em nossa cabeça.
Mas, enfim, eu disse para a Aninha: - Vamos observar, se voltar a sangrar você me avisa imediatamente que devemos correr para o hospital.
Neste momento ela me confessou que estava sentindo um pouco de dor no abdômen. Observei logo abaixo de seu umbigo e estava contraído. Pensei novamente na frase de algum médico, aliás, na frase do Dr. Dráusio Varela que fazia a matéria sobre as grávidas no Fantástico: - A contração é como uma pequena cólica passageira, e quando se está em trabalho de parto o intervalo entre as dores vai ficando menor.
Perguntei se a dor já havia passado, e ela me disse que estava passando. Pedi para ela me avisar se voltasse a doer, e comecei a contar mentalmente, li em algum lugar que no trabalho de parto os intervalos das contrações eram de quarenta e cinco segundos. Quando cheguei em um minuto, eu já estava esperando ela me avisar que a dor voltara, mas nada. Aos dois minutos eu já estava quase desistindo, mas, era domingo eu já havia perdido o sono mesmo, não custava contar mais um pouquinho.
Fui contando até aproximadamente quatrocentos quando ela me disse: - Acho que está voltando. Olhei para o rosto dela e ela me disse: - Dói pra caralho! Eu tentei manter a calma e lhe disse: - Em pouco tempo passa. E de fato, quarenta segundos depois passou.
Contei até quatrocentos novamente e não deu outra: Contração de quarenta segundos de duração.
Após mais ou menos uma hora, e algumas contrações, ela foi ao banheiro para verificar se havia mais sangramento, enquanto isso eu fui buscar um relógio para contar melhor o tempo.
Ela saiu do banheiro aliviada: - Nenhum sangue! Eu fiquei aliviado e pensei comigo: - Deve ser um daqueles alarmes falsos que o Dr. Dráusio comentou na TV, que começam com contrações e depois de um tempo vão diminuindo.
Mas para desencargo de consciência, continuei a tomar o tempo, e as dores persistiam no ritmo de sete minutos de intervalo e quarenta segundos de duração.
Não conseguimos dormir mais. E eu fiquei imaginando como seria se a Marianinha resolvesse nascer naquele dia, domingo dezessete de agosto. O parto já tinha sido marcado para o dia seguinte, e deveríamos chegar ao hospital às seis e meia da manhã, ou seja, tínhamos de acordar pelo menos às cinco e meia. Sem contar que na noite seguinte quase impossível de dormir por causa da ansiedade.
Enquanto eu divagava na cama, ela me cutucava: - Está começando de novo! Propus que tomássemos banho, quem sabe isso diminuiria o ritmo das contrações. Mas no fundo eu imaginei que aquele poderia ser o último banho com a neném dentro da barriga, e de qualquer forma, numa emergência, estaríamos preparados.
Propus também que não contássemos nada aos avós, que há uma semana se alojavam em casa, na expectativa do nascimento da Mariana. Uma porque não havia nada concreto, e outra que eles já estavam tão desesperados que se a Ana Paula dissesse "ai!" era capaz de todos correrem - um para cada lado é claro - pegarem as malas e se dirigirem para a maternidade. Só no meio do caminho perceberiam que esqueceram a gestante.
Confesso também que às vezes ajuda demais atrapalha. Quem tem mãe sabe que ela se preocupa com tudo e não deixa você respirar um instante, imagina quatro mães.
Eu queria que minha filha nascesse como manda a tradição cinematográfica romântica - eu tenho esse defeito de pensar minha vida como um filme: estoura a bolsa, o pai fica atrapalhado, pega a esposa (que neste momento está tranqüila) e corre para a maternidade. Depois fica na sala de espera se descabelando enquanto chega o resto dos familiares. Na realidade não é nada disso que acontece.
Primeiro que não há bolsa nenhuma estourando. O pai não fica desesperado com o nascimento. Há uma carreata em direção ao hospital, desde que não haja uma churrascaria no caminho, caso contrário, pára-se para comemorar. Todos os cômodos da casa estão ocupados por familiares na expectativa.
Entretanto, apesar dos pesares, é a primeira neta de ambos os lados, já moramos longe, não é justo privarmos a família desse momento tão importante para eles. Eu sei que sou egoísta nestes momentos e que quero fazer tudo sozinho, mas, o melhor a fazer neste momento, é recebe-los bem, afinal são nossos pais e sempre nos querem bem.
A acomodação durante a semana prévia merece um capítulo à parte, mas em resumo, para mantermos o lado cinematográfico romântico do parto, desde que marcamos a data do parto combinei com os familiares que a ida ao hospital deve ser um momento só nosso - meu, de minha esposa e de minha filha. Eles deveriam ir minutos após nossa acomodação no quarto.
Todos concordaram.
Então, logo após o banho, nos vestimos e tomamos café todos juntos, nós e os futuros avós. Faltava comprar alguns detalhes da decoração do quarto da neném, então o combinado era irmos à feirinha do Largo da Ordem para comprarmos e depois irmos à churrascaria "Fogo de Chão", para o último churrasco de minha filha via cordão umbilical.
Como a Aninha ainda estava sentindo dores, sugeri que ela não fosse à feirinha. Todos concordaram, afinal, uma gestante é sempre uma gestante. Por vezes ela, de tão forte e participativa que era, nem parecia estar grávida, mas uma feira cheia de gente não é lugar de uma gestante às vésperas de parir - não gosto muito desse verbo, mas tinha de encontrar algum lugar para usá-lo, afinal, não dá para falar de um nascimento sem usar o verbo parir.
Meu pai estava com um pouco de dor de cabeça e resolveu também não ir à feirinha. Demos todas as instruções para a compra do material e despachamos as futuras vovós e o futuro vovô.
Continuei contando as contrações e o intervalo diminuiu para cinco minutos. Às vezes eu estava em outro cômodo da casa contando o tempo e no momento exato ela surgia na porta para me dizer que estava começando. Ficou até cômico, pois não queríamos alarmar meu pai, por isso foi um jogo de jóinhas a cada nova contração.
Liguei para o Dr. Sheldon, médico obstetra, mas o celular estava desligado. Então liguei para o Hospital, e a enfermeira me pediu para levar minha esposa para examinar. Tentei ligar novamente para o obstetra e dessa vez ele atendeu, disse que seria importante levar a Aninha para fazer uns exames no Hospital.
A Ana não estava perto, eu verifiquei se tudo que precisávamos estava na mala, e chamei-a num canto. Sem alarme, avisei-a que seria importante irmos ao hospital para um exame, mas que ela ficasse preparada que o parto poderia ser naquele domingo mesmo.
Preparei as malas, e fui para a sala para avisar meu pai. Como eu imaginava ele ficou preocupado, mas prontamente pegou as malas para carregarmos o carro. Ele perguntou se deveria ir junto, mas de comum acordo, decidimos que era melhor ele ficar para avisar o resto do pessoal.
Pronto, lá estava meu filme romântico cinematográfico onde o pai e a mãe encontravam-se sozinhos a caminho do hospital. De repente toca o celular da Ana, e ela me pergunta: - Será que eu devo mentir?
Caso eles não soubessem de nada eu achei melhor mentir, pois dessa forma eles terminariam aquilo que foram fazer na feira e voltariam em segurança para casa.
Realmente, a mãe da Ana não sabia de nada e assim permaneceu durante um tempo.
Chegamos no hospital com toda tranqüilidade, logo fomos encaminhados para a médica de plantão, que já sabia do caso, pois o Dr. Sheldon já havia ligado para o hospital. Examinou a Ana Paula e confirmou que realmente ela tinha contrações, mas que estavam muito fracas para ser considerado um trabalho de parto.
O sangue era resultado de uma pequena dilatação que era tivera. De qualquer forma ela iria ligar para o médico para passar o resultado do exame. Eu perguntei se era possível fazermos o parto no domingo mesmo, pois assim evitaríamos as dores de contrações desnecessárias a uma cesárea.
Ela ligou para o médico, e após alguns minutos de conversa, ficou evidente que o parto seria mesmo naquele dia. Ao desligar o telefone, ela olhou fixamente para a Aninha e disse: Tricotomia!!! Era o pontapé inicial.
Eu saí para acertar os detalhes da internação. Entreguei os papéis e saí para o carro para pegar as malas. Do caminho liguei do celular para minha casa, meu pai me disse que os demais já sabiam que estávamos no hospital e estavam a caminho de casa. Liguei para o celular deles para tranqüilizá-los e avisar que o parto seria mesmo naquele dia, algumas horas mais tarde.
Peguei as coisas no carro, quando voltei para o Hospital a enfermeira já me aguardava para me levar ao quarto. Cheguei no quarto, deixei as coisas e ela me disse que já podia descer para me paramentar (vestir as roupas para assistir a cirurgia), eu me assustei, tinha certeza que o parto iria demorar mais umas horas para acontecer.
Pedi para ficar mais um pouco no quarto para ligar para os avós. Avisei-os então que o parto seria mais rápido do que eu imaginava e que eu já estava sendo chamado para a sala de cirurgia, neste momento todos já se encontravam em casa preparando-se para sair.
Desliguei o telefone e preparei as coisas: deixei tudo na gaveta, preparei a máquina fotográfica e levei a chave para a enfermeira para deixar com os avós.
Desci as escadas preocupado com Ana Paula, a esta altura ela devia estar recebendo a anestesia. Cheguei em uma portinhola onde a enfermeira me pediu para assinar um papel me comprometendo a pagar uma taxinha para assistir ao parto. Assinei, peguei as roupas e entrei no vestiário. Lá dentro encontrei o médico que também estava se paramentando. Terminei de me vestir e fui encaminhado para uma salinha de espera com uma televisão.
Lá eu tive de aguardar um pouco, e como eu estava preocupado em passar mal na sala de cirurgia, resolvi comer umas bolachas e um café com leite bem doce, quem sabe um pouco de glicose me faria bem.
Fiquei assistindo um pouco de TV, estava passando "O Grande Dragão Branco" com Van Daime. Lembrei-me da Aninha que me dizia que detestava filmes do Van Damie e que havia jurado nunca mais assistir filmes com esse ator, mas como não havia mais nada para fazer, fiquei olhando para a TV, sem prestar muita atenção.
Com o tempo, comecei a assistir ao filme e esquecer tudo que estava ao redor. Numa determinada cena do filme, o ator estava se preparando para lutar, fazendo concentração numa abertura total - cena tradicional dos filmes desse ator - quando o coadjuvante olhou para ele e fez uma brincadeirinha: - É melhor você parar de praticar isso se quiser ser pai um dia! Foi aí que eu me lembrei onde estava e o que estava fazendo ali.
Resolvi aproveitar o espelho que estava em minha frente para tirar uma foto minha antes do parto, a máquina fotográfica falhou. Aproveitei que tinha tempo para conferir se o filme estava bem posicionado e testei-a novamente. Excelente! Se ela falhasse no meio do parto seria impossível pedir para repetir a pose.
Então o médico me chamou, e lá estava ela, Ana Paula, deitada na mesa de cirurgia me aguardando, sorriu quando me viu todo paramentado. Cumprimentei os médicos, mas não havia lugar para eu sentar na cabeceira da Ana Paula.
De pé, pude ver parte da cirurgia. Acompanhei o primeiro corte e não me senti mal. Resolvi permanecer de pé.
Os médicos colocaram uns drenos dentro da barriga da Aninha, quando o obstetra exclamou: Lá vem ela! Em seguida o dreno começou a sugar um líquido escuro que supus ser o líquido amniótico com um pouco de sangue. O anestesista começou a empurrar a barriga com as mãos e em pouco tempo surgiu a cabecinha cabeluda da Marianinha. Comecei a fotografar.
Em poucos segundos seu corpo já estava todo fora, e ela começou a balbuciar - não era bem um choro, acho que mais uma reclamação, pois ela devia estar bem quentinha ali dentro.
Os médicos cortaram seu cordão umbilical e apresentaram-nos à Marianinha. Às 13:56 horas do dia 17 de agosto de 2003, pesando 3kg e 40g e medindo aproximadamente 46,5cm, nasceu no Hospital Maternidade Nossa Senhora de Fátima em Curitiba, Mariana El-Memari Públio, perfeita e cheia de saúde.
Depois, o médico saiu apressado e eu perguntei se podia acompanhá-lo, ele me disse que sim. Olhei para a Aninha para ver se tudo estava bem e ela me disse: Vai ver nossa filha!
Cheguei numa salinha logo ao lado e o médico estava massageando a Marianinha, pegando seus braços e depois passando o dedo nos seus pés. Limpou o líquido que havia em sua garganta e narinas. Embrulhou-a e levou-a de volta para a Aninha. Nesse momento tiramos mais fotos.
A Marianinha voltou para um berço aquecido e então eu não queria mais sair de perto dela. Tirei diversas fotos e conversei bastante com ela. Ela ficava me olhando e me analisando. A cada nova disparada do flash ela fechava os olhos com força e depois ia reabrindo-os meio desconfiada.
Voltei para a sala de cirurgia para ver se minha esposa estava bem. Os médicos já haviam retirado a placenta e já estavam realizando a sutura.
A Aninha começou a tremer por causa da anestesia, os médicos foram prontos em colocar sobre ela alguns panos aquecidos para diminuir a tremedeira. Seus lábios estavam pálidos e por esse motivo eu fiquei um pouco preocupado. Perguntei sobre sua pressão e o anestesista disse que estava em onze por nove - quando ela entrou no hospital sua pressão estava dez por seis, o que o médico indicou como sendo seu normal.
Em pouco tempo Ana Paula se recuperou, mas a tremedeira não cessou totalmente, apenas diminuiu. O anestesista me disse que isso era normal e que nunca vira um casal tão tranqüilo numa sala de cirurgia, é evidente que ele diz isso para todos os casais, mas de qualquer forma isso fez bem para o nosso ego.
Enquanto os médicos faziam a sutura, eu ficava perambulando entre a sala que se encontrava minha filha e a sala que se encontrava minha esposa.
Numa das passagens pela sala onde estava Marianinha, perguntei para a enfermeira qual tinha sido o APGAR de minha filha - pontuação realizada no primeiro e no quinto minuto de vida da criança, coisas que aprendemos nesses cursinhos de gestante e que possuem eficácia questionável por alguns médicos - ela me disse que o seu APGAR havia sido nove e nove, e que o Dr. Marcelo nunca dava dez.
Cabe aqui um elogio aos médicos que acompanharam o obstetra Dr. Sheldon: Dr. Douglas o anestesista e Dr. Marcelo Lobo o pediatra neonatologista.
Todos muito talentosos, atenciosos e o que mais nos chamou a atenção - mas que não tira em nada o mérito deles, apenas acrescenta - a idade deles, bastante novos. O Dr. Sheldon nos disse posteriormente que emergências aos domingos sempre ficam a cargo do pessoal mais novo.
Finalizada a sutura, inicia-se o processo de limpeza da paciente, neste momento eu vi o corte fechado e percebi uma precisão impecável. Os médicos estavam abandonando a sala, quando a enfermeira me pediu para também sair, eu perguntei se não podia ficar, e ela me disse que não. Mais tarde ela disse para minha esposa que dificilmente os pais ficam mais tempo do que preciso na sala de cirurgia.
Por falar na enfermeira, ocorreu um fato cômico que eu não presenciei, a Aninha me contou que quando a enfermeira foi colocar iodo sobre ela, derramou tanto que até sujou a testa do anestesista (Dr. Douglas) e que os demais médicos tiraram sarro, o clima foi de tanta descontração que nem parecia uma cirurgia.
Chegando no quarto encontrei todos os avós ansiosos, ávidos por detalhes, mas como não sou muito de falar, contei meio por cima o que havia ocorrido.
Pouco tempo depois chegou a Ana Paula na maca junto com a pessoa mais esperada dos últimos nove meses: Mariana.